domingo, 10 de agosto de 2008

VOCÊ É "HANDS ON"?

Mensagem de Max Gehringer / Colunista da Revista EXAME

Vi um anúncio de emprego.

A vaga era de Gestor de Atendimento Interno, nome que agora se dá à Seção de Serviços Gerais. E a empresa exigia que os interessados possuíssem - sem contar a formação superior - liderança, criatividade, energia, ambição, conhecimentos de informática, fluência em inglês e não bastasse tudo isso, ainda fossem HANDS ON.

Para o felizardo que conseguisse convencer o entrevistador de que possuía essa variada gama de habilidades, o salário era um assombro: 800 reais. Ou seja, um pitico.

Não que esse fosse algum exemplo fora da realidade. Ao contrário, é quase o paradigma dos anúncios de emprego. A abundância de candidatos permite que as empresas levantem cada vez mais a altura da barra que o postulante terá de saltar para ser admitido. E muitos, de fato, saltam. E se empolgam. E aí vêm as agruras da super-qualificação, que é uma espécie do lado avesso do efeito pitico...

Vamos supor que, após uma duríssima competição com outros candidatos tão bem preparados quanto ela, a Fabiana (pessoa fictícia) conseguisse ser admitida como gestora de atendimento interno.. E um de seus primeiros clientes fosse o seu Borges (também fictício), Gerente da Contabilidade:

Seu Borges: - Fabiana, eu quero três cópias deste relatório.
Fabiana: - In a hurry!
Seu Borges: - Saúde.
Fabiana: - Não, Seu Borges, isso quer dizer 'bem rapidinho'. É que eu tenho fluência em inglês. Aliás, desculpe perguntar, mas por que a empresa exige fluência em inglês se aqui só se fala português?
Seu Borges: - E eu sei lá? Dá para você tirar logo as cópias?
Fabiana: - O senhor não prefere que eu digitalize o relatório? Porque eu tenho profundos conhecimentos de informática.
Seu Borges: - Não, não! Cópias normais mesmo.
Fabiana: - Certo. Mas eu não poderia deixar de mencionar minha criatividade. Eu já comecei a desenvolver um projeto pessoal visando eliminar 30% das cópias que tiramos.
Seu Borges: - Fabiana, desse jeito não vai dar!
Fabiana: - E eu não sei? Preciso urgentemente de uma auxiliar.
Seu Borges: - Como assim?
Fabiana: - É que eu sou líder, e não tenho ninguém para liderar. E considero isso um desperdício do meu potencial energético.
Seu Borges: - Olha, neste momento, eu só preciso das três cópias.
Fabiana: - Com certeza. Mas antes vamos discutir meu futuro...
Seu Borges: - Futuro? Que futuro?
Fabiana: - É que eu sou ambiciosa. Já faz dois dias que eu estou aqui e ainda não aconteceu nada.
Seu Borges: - Fabiana, eu estou aqui há 18 anos e também não me aconteceu nada!
Fabiana: - Sei. Mas o senhor é hands on?
Seu Borges: - Hã?
Fabiana: - Hands on... "MÃO NA MASSA"!
Seu Borges: - Claro que sou!
Fabiana: - Então o senhor mesmo tira as cópias!!! E agora com licença que eu vou sair por aí explorando minhas potencialidades. Foi o que me prometeram quando eu fui contratada!

Então, o mercado de trabalho está ficando dividido em duas facções:

1 - Uma, cada vez maior, é a dos que não conseguem boas vagas porque não têm as qualificações requeridas.

2 - E o outro grupo, pequeno, mas crescente, é o dos que são admitidos porque possuem todas as competências exigidas nos anúncios, mas não poderão usar nem metade delas, porque, no fundo, a função não precisava delas.

Alguém ponderará - com justa razão - que a empresa está de olho no longo prazo: sendo portador de tantos talentos, o funcionário poderá ir sendo preparado para assumir responsabilidades cada vez maiores.

Em uma empresa em que trabalhei, nós caímos nessa armadilha. Admitimos um montão de gente superqualificada. E as conversas ficaram de tão alto nível que um visitante desavisado confundiria nossa salinha do café com a Fundação Alfred Nobel.

Pessoas superqualificadas não resolvem simples problemas!

Um dia um grupo de marketing e finanças foi visitar uma de nossas fábricas e no meio da estrada, a van da empresa pifou. Como isso foi antes do advento do milagre do celular, o jeito era confiar no especialista, o Cleto, motorista da van. E aí todos descobriram que o Cleto falava inglês, tinha informática, energia, criatividade e estava fazendo pós-graduação... só que não sabia nem abrir o capô!!!

Duas horas depois, quando o pessoal ainda estava tentando destrinchar o manual do proprietário, passou um sujeito de bicicleta. Para horror de todos, ele falava 'nóis vai' e coisas do gênero. Mas, em 2 minutos, para espanto geral, botou a van para funcionar. Deram-lhe uns trocados, e ele foi embora feliz da vida.

Aquele ciclista anônimo era o protótipo do funcionário para quem as Empresas modernas torcem o nariz: O QUE É CAPAZ DE RESOLVER, MAS NÃO DE IMPRESSIONAR. É por coisas assim que sempre digo:
"Na vida precisamos conhecer de tudo um pouco! Das coisas mais complicadas até as mais simples que as vezes não damos o merecido valor! Ser completo é ter a cabeça aberta e livre de todo e qualquer tipo de preconceito! Qualquer pessoa, por mais simples que ela seja, sempre terá algo a nos ensinar! Sempre! Por isso o melhor currículo que alguém pode apresentar é o seu conhecimento de vida!"
Franciney A.L.

Um comentário:

deia disse...

Puxa muito boa essa materia..
Concordo plenamente com vc.. a maior de todas as experiencias de vida e de aprendizado é á vida.
Logico que nao vou ser insana de dizer que estudo e conhecimento são despreziveis , mais como a sua propria postagem diz : Alem das coisas academicas e escolares tambem devemos nos especializar com um pouquinho de tudo.
Qualidade e principalmente conhecimento nada tem haver com diplomas , mais sim com o impenho de cada um de nos de nos tornarmos uteis no que nos propomos fazer..
É isso ai Ney rs
Beijos